quarta-feira

Fazendo cachecol

As pessoas sempre dizem que as palavras ferem. É bom ter isso em mente. É pena elas nunca lembrarem que as palavras também curam!
Hoje pensei que a palavra "marola" é engraçada e representa bem o movimento do mar.
O mar é tão grande que faz a gente ter consciência da nossa pequenez, mas daí vem uma onda e faz a gente pensar com tanta plenitude! Aquele um segundo de eternidade não-ilusória... Então ela retrocede de mansinho e a gente volta a ser pequenina.
Quando penso em certas palavras e certas pessoas, aposto que fico do tamanho do mar. E invento que penso e enrolo e desenrolo, como se a vida fosse de concha de caramujo ou de crochê.

segunda-feira

Fiat Lux!

Existe uma força criadora que às vezes sacode a gente da cabeça aos pés. Tem sido comum uma sensação de que borrifaram inspiração demais no ar, de modo que me sinto sufocada. É como se tivessem usado um daqueles sprays de banheiro e me trancado no mundo. Daí vem, possivelmente, meu pânico.
Minhas mãos não foram bem-educadas para produzir, mas, por infortúnios do destino, tive a fortuna de vir morar só. A mulherada mudérna não sabe o que perde em não cozinhar, por exemplo. Você tá ali, tansformando matérias e materializando pensamentos em cheiros e sabores e cores e texturas. É lindo!
A parte ruim de cozinhar é que, durante esse fazer, a cabeça tem mais tempo pra produzir, e daí você já começa a necessitar de mais massa pra outras materializações: é farinha, é ovo, é leite, é óleo quente que espirra; um alumbramento vai fagocitando o outro, crescendo, crescendo... Minha cachola acho que tem muito fermento.
Sábado recebi uma amiga em casa e me pus a cozinhar pra ela. Foi tanta concentração que só voltei pro chão quando ouvi: "você tem cara de mãe... de parideira!". É a segunda vez que isso me acontece e é coisa de mãe cozinhar, mesmo! Parto atrás de parto. Você acabou de parir a comida e já embuchou a cabeça de tanta idéia...
À parte de minhas experiências culinárias, parti pra cima da minha parede. Acho que ando cobrindo a parede de pequenas epifanias pra esvaziar os acúmulos de imaginação e pra tentar me livrar da maldita mania de querer colorir tudo (e todo) o que é cinza - o que é, na verdade, metáfora pra um outro tópico muito mais complexo.
A parede não basta e eu escrevo em qualquer papel de pão. Escrevo miseravelmente mal e com um alívio imensurável. São 24 anos de gavetas oníricas empoeiradas!
Criação é o escudo anti-loucura. Viver não passa do exercício de deixar rastros. Um homem precisa dar contorno ao que é intangível para superar o trauma de ser perecível. Fora a beleza física (que pode existir ou não), é essa a única beleza humana.

De uma hora para outra, tudo faz um pouco de sentido: minhas pautas mentais têm sempre envolvido a energia masculina em estado bruto, a capacidade feminina de amamentar o mundo, a harmonia estética e o potencial lúdico que a gente só tem na infância. Junte tudo num recipiente com recortes coloridos, água e cola... Brinque de Deus e boa diversão!

... E por falar em audição


"Braço da Vênus de Milo acenando 'tchau!' " é a imagem poética mais linda, sagaz, triste, irônica, auto-biográfica, tudo-isso-ao-mesmo-tempo, etc etc que eu já ouvi o Zeca Baleiro cantar.


Corpo insano, mente vã.

O médico tira o otoscópio da minha orelha e suspira longamente. Pelo olhar dele, nessa pequena trégua de palavras, prendo a respiração esperando um "é câncer!" ou então "lindinha, teu nome agora é Van Gogh! Enfermeira, traga o bisturi, álcool e uns panos!"
Mas foi assim:
- Tá BEM inflamado. É otite. Você tem que tomar antibiótico e, por agora, uma injeção.
- AIMEUDEUSDOUTOR! É a segunda em 2 meses! Minha audição vai ficar comprometida? E pode ser amoxilina? É que eu já tenho em casa... E o senhor não pode me medicar agora com qualquer coisa que seja administrada por via oral não? Não quero ficar com duas dores!

Desnecessário contar que quase fui catapultada do leito. Os médicos sempre me odeiam porque sou daquelas pessoas que acreditam em medicina por jurisprudência (baseada, claro, em fatos verídicos contados pela vizinha do outro lado da rua enquanto não chega o caminhão do gás).
Eu, por meu turno, sempre odeio os médicos por nunca me perguntarem a quantas anda o meu etéreo. Explico: toda vez que escuto um tipo específico de não, acabo tampando meus ouvidos sob disfarce de doença.
Se ele tivesse querido saber do meu querido, nem precisava de exame.

Melodrama, melôdrama...

Escutando Novos Baianos foi que me dei conta de que a paronímia entre DOÍDO e DOIDO não pode ser gratuita.

quarta-feira

Valei-me, Kundera!

Era um menino de uns 10 anos, não mais que isso. Tinha os cabelos negros meio grudados à testa pelo suor e as maçãs do rosto pareciam duas maçãs-fruta de tanto correr. Os olhos negros e espertos saracuteavam (bem como os pés que mal alcançavam o chão) rosto a rosto dos poucos passageiros daquele vagão da linha mais high society do metrô de São Paulo. Trajava orgulhosamente a camiseta da escolinha de futebol que deitava desajeitada sobre o bermudão preto. O conjunto era de uma harmonia irreparável. Seus dedos se abraçavam, se largavam, brigavam, colavam-se em sinal de prece... Eu, que estava religiosamente atrasada, senti vergonha da minha pressa perante aquela urgência de viver.
Há algum tempo - ou melhor, há algumas leituras - tenho me tornado uma militante anti kitsch, mas face à cena que se deu em seguida, me traí: quando chegou minha vez de ser fitada, presumo que sorri docemente, porque estava justamente a pensar que, tivesse eu 10 anos também, seriam dele meus papéis de carta... E não foi que o projeto de pedaço-de-mal-caminho piscou pra mim e ainda soprou um sorriso garboso com o ar mais confiante do mundo?
Ainda não decidi se isso é um sinal inexorável da minha condição etária de 'tia' ou se, por mágica de pensamento transbordado em olhar, voltei a ser, por alguns segundos, a menina da tiara vermelha.
De uma forma ou de outra, ele partiu meu coração.

segunda-feira

Diga que não estou!

Enquanto minha companheira de casa estuda piano e voz, penso nos livros que quereria estar lendo. A porta entreaberta me permite partilhar, além das notas errantes, do tilintar das gotinhas de chuva que escorrem alegremente da bananeira do quintal. Algumas explodem na calha e viram outras muitas gotinhas ainda menores. Concluí que quando tenho um encontro espiritual muito feliz, é um pouco isso o que me acontece.
O quarto tem uma alegria e um silêncio perturbadores, e a acolhida do cobertor macio cor-de-cenoura aliado ao chá e ao banho bem quente aliviam minha febre quase por completo.
O cheiro é de lavanda e as fotos são todas sorridas ou pintadas do azul do mar ou do céu, à exceção daquela em que a tarde caía branca no interior de Minas Gerais. Lembrei até do sabor, da textura, da fumacinha quente daquele pão de queijo e do amparo que recebi daquela gente.
É a primeira vez que digo com propriedade: "Estou em casa! Em- ca-sa."
Poderia estar contente em tantos outros lugares hoje... Mas é bom saber que quando estiver triste, estarei aqui.

terça-feira

Dia D

Sentada à janela do ônibus, olhava os carros passarem todos mais rápidos pela esquerda. Não dava tempo de ver se algum deles tinha crianças dormindo no banco de trás, casais conversando, duas mulheres discutindo, um homem feio cantando feliz... Via apenas as placas. Viu a placa DOM 0171. Era um carro preto, tipo sedan, com vidros muito escuros, e esse passou com uma velocidade ainda maior.
Teve certeza que ali dirigia o homem de sua vida. Coisa mais clichê... E lá estava ele, bem à frente. DOM 0171 pára no farol. Ela pôde contemplar por mais alguns instantes aquilo que parecia um invólucro de bonecas russas: ele estaria lá dentro, e dentro dele quantos outros eus?
Torceu para que fizesse o mesmo trajeto de seu ônibus. Ela não poderia descer na garoa, correr pela pista até o semáforo e bater no vidro: "Oi, DOM. Você vai casar comigo. Podemos passar hoje no supermercado porque não tenho vinho em casa pra te oferecer? Se não estiver afim de parar no mercado, podemos ir pra sua casa. Daí eu fico conhecendo a sua primeiro". Ele não notaria seu ar de cansaço nem os cabelos desgrenhados nem as unhas descascadas... Uma de suas bonecas russas reconheceria sua companheira vida afora assim que colocasse os olhos no seu rosto pueril.
O sinal verde acendeu e qualquer coisa dentro dela apagou. DOM 0171 literalmente puxou o carro. "Mas com essa placa, convenhamos...!"
Sentira-se assim desde a primeira infância: enquanto os outros podiam pilotar o próprio destino, ela ia ficando para trás nos semáforos vida afora, a mercê de um motorista sem-coração que, sabia, tomaria por loucura suas súplicas para que ele lhe ajudasse a alcançar DOM 0171.
E não adiantaria chorar, porque isso só faria com que os demais passageiros partilhassem do mau julgamento. Suspirou. Fez uma careta pro cobrador. Abriu um livro. Não gostou. Fechou os olhos.
Chegou em casa tarde. "...Também, pudera... Eu sempre chego tarde. Azar de DOM 0171, que não me ofereceu carona!". Sorte a dela.