quinta-feira

História da vizinha da cunhada da minha amiga

Ela andava seduzindo até as pedras. Não que fosse intencional e não que estivesse na plenitude de sua beleza; pelo contrário: sentia-se opaca como nunca, sabia do seu potencial de vitalidade e na ocasião sentia-se viva apenas por mera formalidade - talvez porque respirasse ou porque tivesse compromissos inadiáveis - mas vivia à revelia.
Gente às vezes precisa morrer um pouquinho pra continuar adiante, ao que tudo indica.
Não conseguia dissociar 'vida' de 'estado de graça', e, definitivamente, estava bem longe da definição de pessoa radiante que outrora o mundo inteiro costumava lhe atribuir. Devia ser mesmo por sua recusa à sedução daquilo que não lhe interessasse que a mágica se deu (é impressionante como a vida sempre deixa claro, em tom sutil, que "quem manda aqui é ela").

Ninguém jamais teve notícia de mulher que se aborrecesse ao ser cortejada, nem mesmo ela. O ineditismo da situação poderia ser explicado pelo fato de que ninguém jamais recusara de todo a sua entrega, a não ser ele. Os outros que relutaram acabaram por sucumbir. Uns demoraram mais, e pela demora foram mais hostilizados em ocasião oportuna. O amor dela era mesmo hostil... Seu lado humano era ultra-sensível, mas metade dela era um bicho: amava irracionalmente e intuía como um anjo.
Ninguém lhe adivinhara essa estranha configuração, mas ele pressentiu a tempo. Dizia-se dele que era pessoa sem vocação para delicadezas. Não. A metade humana dela captou uma descomunal capacidade de amar naquele sujeito! Era como um radar cujo sinal estava perfeito. As ondas chegaram nítidas a ela desde o primeiro segundo. Seu faro de bicho pôde mesmo comprová-lo empiricamente depois.
O que se deu a seguir não poderia ter bom final para ela... Mas... e para ele?
Ele tinha aparência sempre bem-disposta e salutar, um aspecto jovial e cheio de vigor, rosto corado de quem acaba de descobrir o elixir do bem-viver. O que será feito daquele imenso montante de amor que o terceiro olho dela rastreou nele de imediato? Ela considerou uma crueldade por parte dele não dividir esse segredo, posto que ela adoecera de amor sublimado.
Era um pouco como preparar uma festa surpresa e o homenageado não aparecer, situação muito patética.
Ela sempre se recompôs de duros golpes com uma rapidez impressionante, qual a lagartixa que se deixa amputar a cauda e consegue regenerá-la depois. Ela sabia que desta vez não seria diferente, mas sabia também que desta feita restariam seqüelas, e tentar supor quais seriam era coisa que em sã consciência não poderia fazer, sob pena de perder a parte do 'sã' e sobrar apenas a 'consciência'.
E consciência de quê? Só tinha calafrios como resposta.
Uma lagartixa caiu sobre seu pé direito justamente no primeiro dia do ano... Era um sinal, mas o radar dela estava absolutamente obstruído pelas ondas amorosas dele, que eram coisa hipnótica.
Quintana errou por pouco, muito pouco: a gente adoece, mesmo, é de amor recolhido, e não de nome feio... Ou então ela estava errada. Ou então ele fez isso por pura maldade para ensiná-la a não ficar mais de tocaia. Ou então era só a vida mostrando que "quem manda aqui é ela"...

Alquimia às avessas:

Me parece que todo ouro que toco tem virado pedra.

Não precisa correr porque a Luiza vem aí:

Minha melhor amiga acaba de escrever algo que me fez recordar um dos N motivos pelo qual continuo usando esse termo tão pré-adolescente para designá-la:

"Felizes daqueles que têm as pérolas a serem jogadas, Louis..."

Minha resposta:
Tê, dedico-te todas as minhas pérolas. São suas por direito e por destino. Queria poder oferecer algo melhor, mas é o que tem pra hoje. Te vira!

terça-feira

Corra Que a Luiza Vem Aí - IV

Essa idéia de esmiuçar a obra de Lispector por conta tem veramente mexido comigo. Mas, digam, amigos: quando foi mesmo que eu tive alguma idéia boa? Pois é.
Crianças, não tentem isso em casa sem grana pro analista e/ou o número do 911 Disk Caguei no Maiô. Sério!

Bem, mas vamos lá. Há tempos parei de escrever: tudo o que rascunhava ultimamente me cheirava a uma imitação de quinta [eleve à caralhésima potência] das brisas claricianas - não que eu tenha ambição de ser escritora; vontade sempre tive, mas, parafraseando - declaradamente! ufa!! - a própria, “se eu escrevesse uma só linha como Clarice, seria uma grande mulher, e não essa desprotegida que sou”.
O caso é que me aconteceram coisas impressionantes nos últimos meses, em concomitância com esse estudo. Devo ter ficado muito influenciada, só pode.
Juntei todo o quebra-cabeça na manhã de hoje, a qual comecei com a prática de procrastinação auto-sabotatória, minha nova religião.
Fui tomando um suco, minhas bolinhas, fumando de barriga vazia, como mamãe odeia que eu faça, e lendo “Alegria Mansa” , crônica de “A Descoberta do Mundo” - ao invés de me mandar logo pro trabalho, haja vista que meu masoquismo já começa na véspera, com o horário NONSENSE que programo para o despertador.
Fiquei absolutamente penalizada com o estado-de-paz-quase-nirvana em que a escritora se encontrava quando o redigiu. Sim, você leu direito: Pe-na-li-za-da em relação a uma pessoa que se encontrava totalmente serena. Mas, veja, serenidade não combina com ela.
Entrei, de corpo físico, no banho, e, evidentemente, de corpo-alma-unha-até-o-último-fio-de-cabelo naqueles meus transes existenciais que só têm começo: “como?! como eu tenho dó da Clarice em paz? Ela, que foi uma pessoa tão perturbada e não tinha dentro de si nada além de amor... Ela merecia paz! Será que faço isso comigo também? Acho paz ruim? Ou acho que não mereço paz? Mas ai... Alegria mansa é uma coisa tão... Mansa...!”
Não tendo argumentos pra discutir com minha própria insensatez, fui elencando uma série de esquisitices que iam pipocando aleatoriamente na cabeça com as bolhinhas do xampu. CARA! EU NÃO COMO ARROZ E FEIJÃO! NÃO COMO! HÁ UM ANO!
Todo mundo me questiona, meus amigos me explicam, muito carinhosamente, que não adianta cortar carboidrato do almoço e comer 3 barras de chocolate ao longo do dia, as funcionárias do bandejão já tiveram até a desfaçatez de dizer que estou ‘muito magrinha’, há aqueles que acham uma falta de educação me servir somente da mistura e da sobremesa, já que não como salada... A esses últimos, sempre faço questão de responder que “não gosto. não gosto, ué!”, porque sou desaforenta por parte de pai e mãe.
Mas a coisa do arroz com feijão realmente linkou tudo: a intenção inicial era evitar um pouco a dose colossal de salitre do bandex (é lóóózico que andei engordando por causa disso; por conta da minha vida junkie é que não haveria de ser, não é mesmo, minha gente?).
O fato é que já era pra eu ter largado mão dessa palhaçada, mas constatei hoje que não consigo mais comer arroz e feijão nem se me prometerem uma viagem rápida até a Antártida sozinha com o Gael ao som de Marvin Gaye. Ok. Retenham essa informação. (a da comida, não do Gael, antas!)

Corta a cena pra FFLCH. Cláckt!

Luiza em junho resolve entrar nessa doutrina aí de curtir a vida adoidado e passa a enrolar estudo no god damn predinho do meio. Luiza está se esganiçando de rir com suas más companhias e estudando língua russa por osmose com o dicionário no colo. Luiza vê um rapaz na escada. O rapaz tem cara de vagabundo. Luiza acha estáile. O rapaz dá uma secada descarada em Luiza. Não restam dúvidas: o rapaz é vagabundo. Luiza se apaixona. Simples assim. Luiza não é uma mulher fácil; Luiza é apenas uma equivocada. Deus perdoa. Luiza jamais se perdoará.

Corta a cena para daqui a 20 anos. Clackt.

Teatro. Luiza vê um homem de barba e camisa de flanela xadrez. Luiza acha estáile (...) Deus perdoa. Luiza jamais se perdoará.

Corta de volta pra dezembro de 2008 (porque filme em seqüência linear a gente que é pseudo-cult não gosta). Cláckt!

CRUSP. Luiza parece ter atingido o ápice de sua vida de Hebe errante. É certo que daqui a 20 anos, quando ela conhecer o vagabundo do teatro, já terão erguido um busto na entrada da FFLCH e um no BH da Augusta em sua homenagem com as inscrições “Good Fellow“. Ela sempre teve esse hábito de inventar paixões por gente X [gesticula aspas com os dedos médio e indicador das duas mãos] e tentar esquecê-las com gente mais X ainda [gesticula de novo]. É sabido que Luiza tem que fingir estar SEMPRE terrivelmente ocupada depois, afinal, não consegue sequer lembrar de tirar a mochila que deixou de molho no balde (a ex-mochila, antes dela fermentar), que não dirá lembrar WHO THE HELL são seus novos 86756453222328907543 amigos, considerando os irreparáveis danos que as bolinhas matinais causaram à sua memória... E sim, eu sei que dá pra reparar que ela se perde e não lembra mais porque começou a falar tanta coisa.

Ah, claro! A alegria mansa e o feijão com arroz. Dezembro no CRUSP. Até então, estava curtindo essa coisa lírica de amor rimando com dor, porque, claro, como poderia eu evoluir como gente se não através da entrega abnegada desse meu coração de fiador? Pular de cabeça num colchão de mola é fácil. Quero ver pular da Golden Gate que nem eu faço! Rá! [Luiza cospe no chão]


CRUSP. Janeiro de 2009. Traumatismo craniano. Sobem os créditos do filme.

Piadas fora, quem me conhece não precisa do desfecho do meu ‘causo‘. E sabe também que disfarço amargura com bom humor, disfarço bom humor com amargura, e assim sucessivamente. Quase que A VIDA fez sentido no banho. Atrasei para o trabalho mais do que o habitual: o texto veio inteirinho à mente num banho de prováveis 2h. Tudo por que? Por que desconfio - e até hoje só não desconfiei certo os números da Mega Sena - que passei um semestre inteiro jogando pérolas aos porcos: aposto minha novíssima sapatilha vermelha (super de Chacrete, Tê. Você não iria gostar!) que nosso galã da escada andou usando meus freqüentes rompantes e mimos de ternurinha (leia-se: mensagens/cartas/etc e tal) para aquela espécie de auto-promoção pueril entre os amigos, que também são partidários do arroz com feijão. “Também” é aqui empregado porque o rapaz é super, mas suuuuper adaptado a essa alegria mansa. Ele na verdade é louco por chocolate, mas, sabendo disso, não pretende ficar diabético da minha doçura.
Por motivo de RESPEITO - essa palavra tão misteriosa para gente imatura e insegura - vou aqui chamar de "A", sigla escolhida por razões óbvias, o amigo que estava com essa pobre vítima do meu amor, no Reveillón, ocasião em que ele, o galã, a quem vou chamar de "D" por motivo de piada interna, fingiu também tomar bolinhas que atrapalham a memória e, provavelmente estranhando a ausência de meus sms psicóticos, sem ter vantagens inéditas pra contar a "A", acabou telefonando, embora eu os tenha convidado, a "D" e quem mais ele quisesse chamar. Aham.
Eis que "A", a quem nunca vi mais magro, de quem nunca sequer ouvi falar, visitou meu orkut no dia seguinte, e, levando em conta que "D" não tem orkut, não poderia ter me achado por outro meio que não fofoca, PAUSA: SEMPRE PREFERI OS VAGABUNDOS POR ACHAR QUE A VAGABUNDAGEM LHES CONSUMIA TEMPO DEMAIS, IMPEDINDO, ASSIM, A PRÁTICA DA FOFOCA, COISA GAY POR EXCELÊNCIA. E OLHA QUE DE GAY EU ENTENDO. E EU NÃO TÔ INSINUANDO QUE "A" E "D" SEJAM GAYS. NÃO! MAS A ATITUDE FOI. A VAGABUNDAGEM LHES CAI MELHOR. SÓ UMA DICA.
Recapitulando: "A" visitou meu profile da internerds. Provavelmente com uma curiosidade mórbida. Não nasci ontem. Última pausa para uma observação pertinente: vou aqui me intitular "T". Sabemos por que.
É evidente que me senti ultrajada. Espero que "D" aceite Jesus no coração se porventura ler isso aqui, e reze um terço por dia agradecendo por eu não tê-lo encontrado por aí nos dias que antecederam o banho de 2h. A sério, acho que eu o teria deixado com a cara mais torta do que a da Fofão, e cara bonita é provavelmente a única virtude legítima que "D" conseguirá ter na vida, tomando por base sua sensibilidade para as relações humanas; e nem foi por merecimento: foi sorte, genética, Nívea Visage, sei lá, mas nasceu com uma cara bem bonita MESMO. Vocês, minhas amiguinhááá, ficariam passadas! Bom, eu fiquei. Mas passou.
... Passou e não passou, porque "D" é fã confesso dos meus escritos de quinta e agora anda divulgando a humilde produção literária da qual ele foi muso inspirador. Obrigada, "D"! Não fosse você na minha vida, e eu não teria me dado conta que nasci mesmo para comer só a sobremesa, que existem pessoas que acham mais prudente comer feijão com arroz e não há mal algum nisso, bem como espero que minha despreocupação em expor por MINHA (e não SUA vontade) meus ataques de lirismo, reativando esse meu blog, prove a vocês e a quem quer que o leia, que também é possível viver sem salada e ser feliz. Vou morrer cedo? Vou!... Mas e você que as vezes parece que vive morto?
Repito: “não gosto, ué. não gosto de feijão com arroz!”.

É isso. Voltei a escrever. Pessoas de bom gosto: temei! A culpa é do "D", meu leitor mais fiel, e agora de "A", que tem me dado audiência. Tomara que meu destempero não faça muito mal ao estômago pessoas como vocês.
A culpa é minha também - eu que tenho fugido da alegria mansa a vida toda como o diabo foge da cruz; a culpa é desse monte de gente bacana que me tem aparecido e me gostado de graça (como tem mesmo que ser) desde o começo do meu descaminho no USPício; a culpa é quase toda da Clarice, que bota gente perturbada como eu pra pasmar em como, na vida, só o que vale, além da arte, é o amor... E espero sinceramente que nas próximas crônicas ela esteja lesa e louca, se descabelando contra tudo, ou então me sentirei um pouco mais sozinha nesse mundo.


*Mirella: to militando contigo - DANE-SE A REFORMA ORTOGRÁFICA. E VIVA O ACENTO CIRCUNFLEXO, DIFERENCIAL, OS HÍFENS, O TREMA, O TIOPÊS, NEOLOGISMOS APOIADOS EM PIADAS INTERNAS E ININTELIGÍVEIS, EU, TU, O RABO DO TATÚ, MEU C... OPS! MIMPOLGAY MENINË RS,RS BEIGOS111 S2