aterro literário
quinta-feira
quarta-feira
Meio Período
Em novo emprego, o engajamento
Em família, a remissão
Montante de fé: a depender da ocasião.
(o desespero é disparador e é ladrão)
Em amizade, a lealdade
Em convicções, a convicção
Em desamor, o prefixo
No amador, o sufixo
...E torna o tempo a tornar tudo 'então'...
Se não há um poder-ser-contínuo-integral na vida,
Sejamos todos impulso-coragem-brutal-de-força-desmedida!
domingo
Anagrama
Será que Sorel sofre de esquizofrenia?
Uma ira, bipolaridade, devaneio, miopia?
Cruzada de Dante sem anjo, literatura que se embaralhou:
Rosa de Powell que murchou, mito que o sol derrubou, Mathilde no círculo Vestíbulo
A Z E T S I R T [espelho quebrado] T R I S T E Z A
Manto que esquenta quando faz calor
sábado
Última chance
É sempre somente invenção.
De: uma mão estendida
http://www.mp3tube.net/br/musics/Cazuza-O-mundo-e-um-moinho/71931/
sexta-feira
Promessa de poesia do umbigo... Cumprida.
Tão padronizado e tão diverso!
As rotas têm fim em si
E, no entanto,
Todos se crêem
Umbigo do Universo
-Por aqui, Sr. Dr. Umbigo! Vamos sentando...
Bebe um cálice da minha miséria
Belisca um pouco da minha dor... Estás com calor?
Ventilo um pouco da minha angústia. Assim está bom?
Não te faças de rogado: aqui estás em casa.
Podes distrair-te brincando com as cinzas do amor na lareira
Vais ouvir-me balbuciar derradeiras injúrias
Enquanto repousas apreciando a paisagem dantesca
Como pareço? Está do teu agrado?
Caprichei nas olheiras
No choro rasgado
No grito exasperado
Na fragilidade do corpo...
[Para que ele desfaleça
Basta-te apenas um sopro]
Pintei a face de lágrimas
Com cores dos dias de janeiro
Me inspirei na música que cantavas - que ironia! -
Num certo fevereiro
Não te lembras, Sr. Umbigo?
Foi naquele carnaval... O primeiro.
Besuntei de lamúrias os lábios
Tão somente pra te servir
E o peito abundante de esperanças
Aberto, arfando, suplicando
Pela não-negação de um porvir
Sei que gostas de fingir-me apreço,
De fazer cerimônias ao que ofereço
Mas te fartas, e é flagrante
Porque vens e voltas saltitante
A cada visita em que lhe sirvo um rompante
Espero que te tenhas aprazido
Com esta que foi tua última ocasião notória
Pois hoje tu és o Sr. Dr. Espírito Umbigo
Amanhã és assombração... Virou história
"Talvez não seja o certo (...)"
segunda-feira
Inseto-existencial-pródigo
Ele recomendou, e ela leu a Metamorfose de Kafka.
Perdeu a noção do limiar entre admiração e deslumbramento pelo anti-herói: entrincheirou-se na suíte que lhe fora destinada como cativeiro e levou para perto de si todas as armas brancas que pudessem ser empunhadas ou atiradas em defesa do território, que agora não poderia ser adentrado por mais ninguém alem dela e da solidão, sua fiel escudeira desde sempre e para sempre.
Passava os dias ouvindo compulsoriamente os ruídos que vinham do além-quarto. A noite e seus silêncios eram sempre curtos demais para dar conta de seus gritos mentais... Ojerizava, ao amanhecer, o som dos veículos que passavam na avenida cheios de (argh!) pessoas. Sentia até medo de se debruçar à janela e dar com algum exemplar dessas criaturazinhas repugnantes. Da varanda do aposento, tudo se invertia: eles eram pequenos e ela era grande. Talvez tenha sido o vislumbre dessa relativização capciosa o momento-chave, aquele passo que não tem nunca regresso, a epifania que a impeliu definitivamente ao confinamento. Olhava-se no espelho somente de relance, para verificar se já tinha se metamorfoseado em inseto e, se sim, com qual tipo de configuração física ela teria sido agraciada.
Nada!
Lia às vezes e pensava francamente em transformar a televisão quebrada em um criadouro de qualquer coisa que não pássaros, para assegurar que não voltasse nunca a ser ligada. A lembrança daquela caixa animada cheia de exemplares ideais(?) da sua [ainda] raça era aterrorizante. Os que não sabiam de seu atual estado tentavam contato eventualmente, e se punham a convidá-la para sair, enchiam-na de perguntas, outros queriam conversar... Completamente inadvertidos! Ela sequer ouvia música que não fosse instrumental para não ouvir vozes humanas, mas, como recordasse ainda a linguagem de seus pares, disfarçava sua voz de inseto ao telefone e alegava compromissos inadiáveis, sucessivos, exaustivos...
-Ah, sim! ZzZzuuumm....ops! cof, cof... Ta uma loucura essa zZzsemana! Te ligo maiszzZ tarde. Um beeeizzZZzo.
Bom mesmo era que no código de conduta dos insetos, mentirosos não ficavam mal-vistos.
No mais, os homens não podem ouvir verdade alguma. Ficam deveras transtornados, e ela já tinha desenvolvido a habilidade artrópode de ficar alheia a essas questões sentimentais, emocionais, psicológicas ou qualquer baboseira equivalente. Não poderia abrir oportunidades de retrocesso.
Na nova rotina, as horas passavam rapidamente, eram leves, ternas, eternas, infindáveis, generosas... As horas eram, finalmente, amigáveis!... E tudo – ou melhor, esse nada absoluto – se dava tão agradavelmente!
Sua única expectativa agora era mesmo a de se metamorfosear o mais rápido possível, preocupando-se um pouco com sua casca humana, porque, essa sim, ela logo iria envelhecer... Sorrateiramente, dia após dia... Uma sutilidade perversa.
O que faria se a transmutação completa jamais viesse e, de moça, se transformasse desavisada em senhora, forçada a voltar ao seio social sob essa composição híbrida de besouro bípede?!
O que fazer?Leila Lopes...
É um tal de girar pra cá, rodar pra lá... Tô ficando até tonta. Vou acabar virando "um aaaaanjo de Deus" com esses comments dadaístas!
Parafraseando o Abujamra, isso aqui é um lixo! Quem entra nessa possilga às 8:55h da manhã pra comentar essa coleção de baboseiras?
Vá ler um livro. É muito mais digno.
sábado
M.V.O.
Faz bico quando fica feliz
E sorri quando esta triste
Se o céu não derrama milagres
Ele finge que existe
Usa a vida como tablado
Constrói e destrói os seus papéis
Grita segredos pro mundo,
Recita em sussurros
(Mini-micro-decibéis)
Anda lento com muita pressa
Disfarça euforia com eufemismo
Pisca os olhos em câmera lenta
Movimento Vagamente Oblíquo
[Entre tantos outros artifícios...
Seduz dos pés ao pé do ouvido]
Você pode ser, quando quiser
Onde for, como acontecer
Que eu assisto e levo fé
Bato palmas pra você
sexta-feira
Tava aqui pensando:
Ou não, também...
sábado
Funeral coletivo
a
v
a
n
d
o...
Com colheres
Do enxoval provisório
Nunca providenciado
Abriu-se uma cova rasa
Para amontoar
Antes de abril
Os cadáveres de matéria sutil
Dos filhos não concebidos,
Não nascidos,
Os não
Criados — sequer malcriados
Restando no seio (dela)
Somente o leite empedrado
Ali depositados putrefariam
Os restos de banquetes
De natais jamais comemorados
Cheios de presentes nunca (des)embrulhados,
Com os respectivos cartões
Claro! nunca enviados,
E as viagens de férias
Sem partida e sem volta,
E as fotografias envelhecidas
Do clã que não surgiria
Vai tudo sendo enterrado
Na vala comum do esquecimento
Como sonhos indigentes
Encontrados à beira da estrada
Nus e sem documentos
E que precisam ser submergidos
Ur-gen-te-men-te escondidos
Para que o odor fétido
Não incomode os passantes,
A família, os amigos... Quiçá, a amante!
1. Solenidades
1.1.
Coroas de flores reaproveitadas
Da grinalda, dos buquês das bodas, das varandas enfeitadas,
Da reconciliação pelo desentendimento de outrora
Que relógio nenhum registrou
Algumas foram colhidas
Talo por talo
Do campo deserto de girassóis de inverno
Onde, já se sabe,
Flor alguma desabrochou;
1.2.
No lugar do orador
Um mendigo ateu
É o pároco em faz-de-conta
Profana impropérios
E baila uma ciranda tonta
Tocando num violino gestual
Uma marcha fúnebre-nupcial
Das núpcias imaginárias
Tradicionalmente executadas
Nas cerimônias da Igreja de São Ninguém;
1.3.
Na lápide, um epitáfio infame:
"Ela esquece com métrica;
Ele esquece com meretriz."
Amém.