domingo

Respirando por aparelhos

Naquela sala estava protegido; como uma bolha, isolava-o do perigo de felicidade que ameaçava na janela: fazia sol.
A vida e aquela série de promessas de encontros e sortes e sorrisos e gozos remetiam-no somente ao esboço mental da ressaca que isso tudo poderia causar. Tudo para ele era invertido. Tudo começava por um viés avesso ao usual, diretamente inverso... E ele se pensava diverso.
Era justamente por tal excentricidade que Bê era tanto mais óbvio que o restante dos homens. É que Bê só girou 180º no sentido oposto ao que os falantes de língua inglesa costumam chamar de common sense (para eles não há distinção semântica entre bom senso e senso comum).
Era só pensar no que uma pessoa faria perante um conflito aleatório, elevar a -¹ e... Voillá! tinha-se o próximo passo de Bê, com o agravante de que ele acreditara sempre que plantar bananeira e sair andando era algo que fazia dele uma pessoa surpreendente.
Não. Seu descolamento do eixo padrão apenas servia para destacá-lo, tornando-o mais previsível. Apontar Bê era um exemplo lúdico para explicar essa e aquela conduta caricatural.
Mas tinha a sala. E a sala o protegia. A sala isolava acusticamente coração e testa. A sala com suas almofadas de tafetá asfixiaria eventuais ímpetos.
Ele calava, ensurdecia, mas seus olhos jamais foram coniventes de sua covardia: os olhos (ou seriam os dentes?) de Bê iluminavam qualquer cantinho triste desse mundo.

terça-feira

Beijos, Freud. Me liga!

À época da escola é que nosso existencialismo aflora com força (e consequências!) assustadoras, e é cedo demais para nos darmos conta disso. Crise dos vinteepoucos? Bobazem! O bicho pega mesmo é quando você tem 9.
Por um motivo bem específico, tive um flashback muito aleatório de algum momento já bastante remoto da minha vida (minhas primaveras ainda constavam de 0 ou 1 no primeiro dígito).
Sempre apreciei a contemplação e a elaboração de conjecturas acerca da vida de desconhecidos, mas existia uma fascinação, uma predileção, um susto, um apreço, uma raiva, uma coisa qualquer com os filhos das professoras nos tantos colégios que frequentei.
Em se tratando de meninos, vejo que pertencem mesmo a uma categoria especial de sujeito.
Será...? Será que só eu tinha esse estranhamento quanto ao filho da professora, quem quer que seja ele, hoje ou num tempo longínquo?
O filho da professora apronta mais e se ferra menos; ele era, à priori, um cuzão - ao menos aos meus olhos - porque o filho da professora não repete de ano e não pega recuperação e não faz traquinagem porque senão toma bronca e a mãe fica profissionalmente comprometida. Quando faz, é segredo! Pega mal.
Agora, eu mais vivida, penso que ele vivia coagido. Penso que o filho da professora era um oprimido.
Mas o filho da professora tem o lanche mais gostoso porque a mãe tá por perto e não consegue negar o dinheiro da cantina. Os nerds têm inveja do filho da professora; os malandros têm raiva do filho da professora; as meninas querem namorar o filho da professora; os funcionários zelam pelo filho da professora; a professora obviamente ama mais o filho da professora do que os demais alunos, que, por sua vez, nutrem um estranho amor pela professora. NINGUÉM é indiferente ao filho da professora... Deve ser por isso que eles são sempre meio marrentinhos, meio "galo do galinheiro", usando a brilhante definição de um grande amigo sobre, TCHARANNNN... Um pura-raça filho da professora.
E daí eu me pergunto outros milhões de coisas: será que o filho da professora morria de ciúmes da mãe? Quantas maçãs ele traz entaladas na garganta? O que é feito da cabecinha do filho da professora quando os anos batem à porta e ele é deposto do cargo de filho da professora?
Deve ser uma liberdade e um abandono. Deve ser uma dúvida danada na cabeça. Já crescidos, observo ainda às vezes aquele ar de realeza, e arrisco que alguns já quase me colocaram o dedo em riste pra dizer [tardiamente, coitados...]: VOCÊ SABE COM QUEM VOCÊ ESTÁ FALANDO? EU SOU O FILHO DA PR... mas, ei! Cresceram. Acho também que, como por mágica, acabam adivinhando em mim uma vocação.
Nos últimos tempos - de primaveras começadas por 2 - meu coração foi refém sôfrego (pra usar um eufemismo) de dois encantadores/insuportáveis filhos da professora, e até hoje eu nem tinha dado a mínima relevância a essa coincidência. Mas tem outras!

Eu quero ser professora. Sempre quis, mas nunca soube antes. Percebi há alguns meses, como uma notícia de gestação que chega por telegrama. Eu gero o filho da professora dentro de mim há tanto tempo, e sequer suspeito quando darei à luz.
Isso explica TANTA coisa!

quinta-feira

TPM

Mais um temporal. E ônibus lotado. E aquela profusão de cheiros suados e molhados. E por que será que o celular da gente sempre toca nessa hora?
Eu ontem esqueci o celular em casa e fiquei PUTA. Hoje, quando ele tocou, fiquei muito mais.
-Alô, tô atendendo só pra dizer que não posso atender, oquêi?
Como a vida moderna é estúpida: a gente paga (e tem quem pague bem caro) por uma coleira móvel com um design interessante... Putz! Odeio o fato de que a minha condição de mulher me fragilize a ponto de eu me submeter a um celular, como se isso fosse me proteger de alguma coisa. Odiar é, aliás, o verbo do dia. Mulher é o substantivo do dia. Hormônios são os vilões há dois dias.
... E tem quem desafie o perigo: um doido insinuou que eu to gorda, pra me provocar. Eu queria saber qual é o barato da fascinação que eu exerço sobre os doidos! E não são os doidos no sentido figurativo não: doido, doido de lelé mesmo, daqueles que rasgam dinheiro e guardam papel higiênico usado na carteira, e que inclusive desenvolveram toda uma teoria revolucionária a esse respeito. Resta o tempo se encarregar de fazer justiça a esses gênios, vítimas do sistema, dessa sociedade opressora, arcaica, cega, e blablablablabla... Àpaputaquepariu. Não sabe que esses 10 quilos a mais são tudo culpa do inchaço da TPM? BURRO!
Sorte dele eu já saber que ele é doido e que ele tava de recalque pra cima de mim por conta da minha indiferença eterna: não conhecesse eu a figura, nem sei... Tem coisas que é bom nem saber.
E daí eu chego em casa, respiro aliviada e vem a parte B: choro.
Choro Nilos e Niágaras! Por quê?! Não seeeei! Mas por que a pergunta, hein?
H E I N???
Já sei!! (PLIM!)... FIL-ME DO AL-MO-DO-VAR. Nunca falha! Tão coloridos, tão engraçados, tão anti-exemplos do exagero...
E era uma picaretagem generalizada, o professor que queria comer a aluna e mentia pra amante que não tinha outra amante, e a aluna fazendo cara de Maria pra lá e pra cá, uma patifaria só... E eu: nossa! que história de amor linda! Choro.

NÃO É POSSÍVEL.
Apelei pro chocolate, liguei pro Zé, apelei pro salgadinho, o Zé trouxe mais chocolate, e daí eu lembrava de um desamor por quem eu moraria (sim, Zé! eu juro!) em Palheireiros e faria bolo pra fora enquanto ele procurasse emprego [eternamente] nos intervalos entre o futebol e o carteado cos cumpadi. E daí eu decido bater um papo com os amigos no MSN, e aquela chuva de elogios motivacionais, e daí eu me dou conta do quão ridículo é pensar que a gente é muito mais do que um bicho quimicamente regulado. Racionalidademeucu!
Não adianta, eu sou ariana: eu não sofro de tensão pré-menstrual; sofro de Tensão Pré-Morte. Vai saber por quantos anos... Tomara que eu não seja mesmo a futura Dercy, como dizem. Em nenhum sentido.
Rogai, irmãos!

sábado

Colisão

O amor é uma impossível estrada. Amor só existe em
Duas
Mãos.

[de: uma EX-andarilha]

sexta-feira

Desafio

[para José Dias]

... E como chega a alguma conclusão quem só pensa com o coração?


Matemática sartriana

Será possível somar quantas vezes me pego tentando me ver com seu olhar?

terça-feira

Dúvida

Pra onde foge quem já fugiu de casa?

segunda-feira

Março

Minha vó ficaria orgulhosa: ando obcecada por faxina. Isso seria impensável há pouco tempo atrás, embora eu tenha sido sempre uma pessoa limpinha (no sentido denotativo).
Essa noite choveu forte: era uma chuva que parece que tinha urgência em precipitar. Toda vez que isso acontece lá fora, percebo que o mesmo se passa em mim (vai ver que é por isso que tenho medo de janeiros). Assim: arrumo, limpo e elimino tudo quanto me é desnecessário aqui em casa e depois chove no meu espírito. Sucessivamente. É bonito, embora exaustivo.
... E não foi que hoje uma amiga ciganinha me disse que tenho parte com Iansã? Eu que hoje usei meus raios para afugentar um bêbado inconveniente; eu, que tenho feito questão de esquecer que tenho raios na manga como proteção...
Mas choveu hoje. Dentro e fora.
Espero não ter que pedir ajuda humanitária depois de tantos temporais.