quarta-feira

Vilão

Não se sabe de onde ele veio e isso pouco importa, conquanto que não se vá. Ledo engano: ele sempre parte. De suas partidas ficam somente corações e sorrisos partidos, posto que sua missão na Terra é apagar com gelo a chama dos grandes anseios amorosos.
Deus sabe quantas mulheres foram cremadas vivas pelo próprio fogo! Brasa apagada com gelo vira fóssil, coisa difícil de deteriorar com o pífio tempo de uma vida humana.
Ele erra pelo mundo numa jornada de mil outonos. Assim: chega com a alegria de mil primaveras e deixa um legado de mil invernos siberianos. Some por alguma janela, misteriosamente carregado por borboletas - mas há quem diga que "aquele ali só pode ter parte com mariposas!".
Tanto faz. Ele vai. Ele foi. Ele fica. E ninguém mais.

terça-feira

Fuga

Diriam que acordei com um nó na garganta. Não. Estou o próprio fio tensionado de um nó; um daqueles que a gente desiste de desatar.
O céu não está cinza, os carros continuam a fazer a trilha de fundo do meu dia, as crianças ainda brincam na orla de tantos, tantos mares... Em algum lugar de mim mesma, brinco também à beira-mar.
O que me faz falta é a comunhão entre corpo e espírito. Eles andam irremediavelmente às turras e isso já faz muito tempo. Cada um segurando uma ponta do fio, o que só presta mesmo para apertar o nó, já que caminham em direções opostas. O que fica no meio é o que chamo, por falta de opção, 'eu'. Tudo o que tenho são parcas pistas: um nome, um rosto no espelho, uma árvore genealógica, um cheiro, uma voz rouca, manias conhecidas, deveres a cumprir, uma pequena sombra envolta por neblina de sonhos multicores... E nada disso me pertence, que até pra ter uma sombra, dependo do sol, e pra ter uma voz, dependo de um ar que vibre, e até para enlouquecer, preciso de um devaneio que me leve embora à galope.

domingo

Estrangeira

Faz menos de uma semana e já não se sabe mais se era Gabriel, Daniel, Rafael... O que jamais esquecerá é que era um nome de anjo com um corpo todinho moldado pelo diabo. Tinha as costas tatuadas de cima a baixo de um desenho que dançava em movimentos vigorosos; tinha cheiro de sândalo e gosto exótico para a moda íntima: não tem a menor idéia de como era sua camiseta, mas recorda-se do estranhamento diante de uma cueca amarela. Ponderou que poderia ter sido um presente, vá lá, mas ele escolheu usá-la. Até hoje não conseguiu chegar a um veredicto sobre a escolha, porque sempre guardou um imenso respeito por tudo quanto não fosse óbvio no outro.
A bem da verdade, pouco lhe importava a historinha da cueca. Tivesse ele achado no chão e vestido, não seria uma notícia recebida com sobressalto. Sua vida afetiva era agora uma coleção de selos e era um passatempo interessante o de compará-los em alguma medida. "Esse é mais colorido. Esse lembra um busto romano. Esse está mais perto das estrelas do que de mim. Esse ao menos me carregou junto rumo às estrelas. Esse me empurrou das nuvens. Esse é xará de um cantor brega. Esse tem o sexo com formas e proporções absolutamente parecidos com o daquele... Como é mesmo o nome dele?"
Comparava-os com o critério único de que não haveria como compará-los. Lambia os selos e colava-os em seu devido lugar. Fechava o álbum. Coletava novos selos. Lambia. Comparava. Fechava o álbum... E, dia desses, apertou-o contra o peito e chorou doído, porque o único selo que queria era o de um país que não existia.

sábado

Freud me ligou de novo...

... Só pra me lembrar de que meu pai também é filho da professora!
o.O

Insucessos

Sou o tipo de pessoa que só consegue fazer regime de barriga bem cheia.

quinta-feira

Anistia

Em minha mente tenho tudo o que preciso pra viver bem, como um hiper-estoque.
Eu quero uma abóbora. Fecho os olhos e acesso uma abóbora.
Eu quero um cavalo branco com pintas de girafa... E lá está ele.
Sempre tenho mais dificuldade na seção de artigos abstratos. Por que ainda não aprendi a achar o que preciso na prateleira certa?
Procuro serenidade e acho nostalgia; tento alçar um embrulho da gôndola de iniciativa e o montinho despenca em efeito dominó. Começo a catar tudo com ar constrangido e me vem a moça trajando o uniforme da Consciência com cara de má-vontade dizendo que não precisa: os estoquistas hão de ajeitar a bagunça mais cedo ou mais tarde.
Ouvi falar que em algum departamento existe solitude, mas me parece que ela tem um preço maior do que posso dispor no momento... E com isso vou levando itens genéricos cujo resultado é bem no esquema do "barato que sai caro". Nada serve, nada serve!
Fico impaciente e naturalmente penso em abandonar meu cesto e sair pisando duro. Creio que já cheguei bem perto da porta e voltei atrás. Foi um momento sublime! Naquele trecho de vida, me perdoei por ter ficado passeando o tempo todo com tamanha displiscência que não atentei às orientações sobre os produtos de matéria mais sutil. Eles são difíceis de enxergar mesmo!
Nesse momento, puxo meu extrato de auto-sabotagem e avalio com ar grave. A dívida é imensa e não sei mais como saldá-la. Não tendo uma segunda opção, rasgo as promissórias e me perdôo, inclusive, por não me perdoar novamente.