Existe uma força criadora que às vezes sacode a gente da cabeça aos pés. Tem sido comum uma sensação de que borrifaram inspiração demais no ar, de modo que me sinto sufocada. É como se tivessem usado um daqueles sprays de banheiro e me trancado no mundo. Daí vem, possivelmente, meu pânico.
Minhas mãos não foram bem-educadas para produzir, mas, por infortúnios do destino, tive a fortuna de vir morar só. A mulherada mudérna não sabe o que perde em não cozinhar, por exemplo. Você tá ali, tansformando matérias e materializando pensamentos em cheiros e sabores e cores e texturas. É lindo!
A parte ruim de cozinhar é que, durante esse fazer, a cabeça tem mais tempo pra produzir, e daí você já começa a necessitar de mais massa pra outras materializações: é farinha, é ovo, é leite, é óleo quente que espirra; um alumbramento vai fagocitando o outro, crescendo, crescendo... Minha cachola acho que tem muito fermento.
Sábado recebi uma amiga em casa e me pus a cozinhar pra ela. Foi tanta concentração que só voltei pro chão quando ouvi: "você tem cara de mãe... de parideira!". É a segunda vez que isso me acontece e é coisa de mãe cozinhar, mesmo! Parto atrás de parto. Você acabou de parir a comida e já embuchou a cabeça de tanta idéia...
À parte de minhas experiências culinárias, parti pra cima da minha parede. Acho que ando cobrindo a parede de pequenas epifanias pra esvaziar os acúmulos de imaginação e pra tentar me livrar da maldita mania de querer colorir tudo (e todo) o que é cinza - o que é, na verdade, metáfora pra um outro tópico muito mais complexo.
A parede não basta e eu escrevo em qualquer papel de pão. Escrevo miseravelmente mal e com um alívio imensurável. São 24 anos de gavetas oníricas empoeiradas!
Criação é o escudo anti-loucura. Viver não passa do exercício de deixar rastros. Um homem precisa dar contorno ao que é intangível para superar o trauma de ser perecível. Fora a beleza física (que pode existir ou não), é essa a única beleza humana.
De uma hora para outra, tudo faz um pouco de sentido: minhas pautas mentais têm sempre envolvido a energia masculina em estado bruto, a capacidade feminina de amamentar o mundo, a harmonia estética e o potencial lúdico que a gente só tem na infância. Junte tudo num recipiente com recortes coloridos, água e cola... Brinque de Deus e boa diversão!
aterro literário
segunda-feira
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4 comentários:
bom, bom
bem bom!
final em êxtase, gata, bem vc!
caralho, vai se foder que texto bom da porra. to liquidificado, vou dormir mas amanha vou te reler mais e mais vezes que porra. porra de vida! sabe?
beijo
Um dos melhores que já li aqui! Muito bom mesmo! Texto com cara de Luiza, jeito de Luiza...essa eterna metamorfose, com sua profusão de pensamentos. Kafka faria uma personagem...que inseto seria?!?!
Uma joaninha, course!
E quem é esse Anônimo?
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