aterro literário
segunda-feira
Mario Quintana = Tirésias
[Luiza lendo 'Preparativos de Viagem' mode: ON]
"O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam."
... PLIM!!! (I)
sábado
Infância tardia ou senilidade precoce
O barulho era misterioso e cortou sua pasmaceira. Por alguns instantes, ela cogitou a presença de um espírito além-mundo no quarto, decerto atraído pela dor que empesteava todo o ambiente. “Os espíritos têm essa má-fama de castradores que vêm se servir de dores descabidas e injustificadas, penalizando, assim, quem quer que tenha a audácia de senti-las sem um propósito de cunho nobre, castigando quem os sinta por pura indolência”.
Foi quando se lembrou que Deus não existia... Em tese, não. Não do jeito que todos gostam de acreditar. “Com isso, elimina-se a hipótese de visita fúnebre”. Ela se sentiu bem paranóica e inepta para o raciocínio lógico.
Empenhou-se em visitar cada cantinho do aposento com os olhos. Refletiu displicentemente acerca da praticidade do mecanismo de olhar enquanto o fazia: era mais cômodo do que controle-remoto! Procurava a origem do som com um meio-sorriso sagaz, sem perceber como seria mais interessante a reflexão sobre a colaboração mútua entre os sentidos do corpo. Se o espírito estivesse mesmo lá, e, se possível fosse, teria morrido novamente, de tanto zombar dela em segredo.
Encontrou, afinal, o que buscava: o inseto voador se chocava contra o vidro aplicando toda a sua energia... E ela não era pouca! Cabeceava a superfície com uma violência assustadora, como se não tivesse em si o senso de preservação da espécie ou como se quisesse mesmo cair morto no trilho da porta que dava para a varanda.
Essa era, certamente, uma observação inédita. Foi revelador. Ela nunca tinha pensado a respeito. Jamais imaginara que os insetos, renomados adeptos da labuta incessante, pudessem depreender um grande volume energético para realizar qualquer atividade que não fosse fortemente ligada ao tédio, embora sua vida fosse, na imensa maior parte do tempo, um incessante divagar caótico, inútil e efêmero. Todas as idéias, sem exceção, que relampejavam em sua mente, faziam-na acreditar que a partir daquele instante singular seus paradigmas se estraçalhariam e ela nunca mais seria a mesma pessoa. Depois de algum tempo ainda não mensurável pela Teoria da Relatividade, as tais idéias acabavam por se perder na pesada atmosfera urbana.
Ela sempre especulava mentalmente quem as teria raptado, o que teria sido feito das idéias, e se, de fato, em seu piscar-e-apagar, elas teriam deixado algum legado no mundo... Se não no nosso, que fosse, ao menos, no mundo das idéias. Gostava de ter certeza de que as idéias ficavam sempre no ar, dissipadas na fumaça, esperando que alguém as pescasse – ou seriam as pessoas que fisgavam seus anzóis?
“As idéias são traiçoeiras...” – pensava, às vezes. “Elas sim é que são felizes: aproximam-se de nós, se exibem, seduzem, iludem... E se vão! Talvez buscando a sensação de completude que só mesmo um olhar desconhecido e incisivo proporciona. Devem viver sempre assim; vagando, sempre felizes e faceiras e, em especial, sempre lépidas. Será que sentem saudade? Ficariam entristecidas caso algum estranho que fora encantado por elas não sentisse sua falta quando de sua misteriosa partida?”
Ao fim, pensava que não, que elas tinham uma natureza muito diversa da dos homens para ter esse tipo de despeito. Levava sempre em consideração a estupidez de sua teoria sobre as idéias, mas ficava em dúvida quanto à seguinte possibilidade: isso poderia muito bem ser mais uma idéia devassa tentando seduzi-la para depois dar o fora. “Como as idéias são ardilosas!... se é que elas são qualquer coisa externa à nossa fisiologia química cerebral”.
Observava ainda o inseto, com uma atenção comparável à de um animal que estuda a presa durante a caça. Entendeu que o problema do novo habitante do quarto era o de não se conformar com o caráter obsoleto das asas diante da impossibilidade de voar pra onde o desejo norteia. “De fato, as asas não têm muito sentido, assim, de maneira geral... Asas são, indiscutivelmente, membros bem irônicos”. Quantas vezes ela mesma sentira-se aliviada por ter apenas braços e pernas? Muitas. Ela era íntima dessa sensação... Percebê-lo ali foi como receber a visita de um ente há muito afastado, com quem se convivera, meio que por obrigação, durante períodos espaçados na infância. Eis que acontece, é inevitável: anos depois, geralmente por motivos relacionados a eventos familiares inacreditavelmente enfadonhos, os dois [agora] desconhecidos, que em alguma dimensão já muito distante vislumbraram o temperamento mais autêntico um do outro se confrontam. Sempre há a curiosidade quanto ao que foi feito dos ímpetos que habitavam a alma de outrem quando a idade e o mundo ainda não os tinha corrompido no sentido de moldá-los e mascará-los. No final das contas, é sempre uma decepção anunciada.
A presença dela não incomodava o inseto, o que era recíproco. Sim, eles sentiram uma cumplicidade instantânea. Uma dor compartilhada. Uma compreensão sinestésica.
O que doía nele – e aqui não se faz alusão a qualquer sensação física – doía nela. Mas doía ao contrário. Eles se complementavam: o inseto não tinha, a priori, a força necessária para cumprir o feito que desejava; ela não tinha a pequenez do inseto para voar por aí passando despercebida. Ele não tolerava o intransponível; ela não queria mais o desejo de transpor coisa alguma.
Cumprimentaram-se, desejando boa sorte na investida alheia em tudo aquilo que não poderiam nunca ser. Ele sentiu pena dela. Ela o achou patético e um tanto arrogante. No fundo, se invejavam, e, logo depois, apercebiam-se novamente de que eram pares.
Daquele dia em diante, sem aviso e sem consentimento, o inseto existencial jamais abandonaria a humana.