Sentada à janela do ônibus, olhava os carros passarem todos mais rápidos pela esquerda. Não dava tempo de ver se algum deles tinha crianças dormindo no banco de trás, casais conversando, duas mulheres discutindo, um homem feio cantando feliz... Via apenas as placas. Viu a placa DOM 0171. Era um carro preto, tipo sedan, com vidros muito escuros, e esse passou com uma velocidade ainda maior.
Teve certeza que ali dirigia o homem de sua vida. Coisa mais clichê... E lá estava ele, bem à frente. DOM 0171 pára no farol. Ela pôde contemplar por mais alguns instantes aquilo que parecia um invólucro de bonecas russas: ele estaria lá dentro, e dentro dele quantos outros eus?
Torceu para que fizesse o mesmo trajeto de seu ônibus. Ela não poderia descer na garoa, correr pela pista até o semáforo e bater no vidro: "Oi, DOM. Você vai casar comigo. Podemos passar hoje no supermercado porque não tenho vinho em casa pra te oferecer? Se não estiver afim de parar no mercado, podemos ir pra sua casa. Daí eu fico conhecendo a sua primeiro". Ele não notaria seu ar de cansaço nem os cabelos desgrenhados nem as unhas descascadas... Uma de suas bonecas russas reconheceria sua companheira vida afora assim que colocasse os olhos no seu rosto pueril.
O sinal verde acendeu e qualquer coisa dentro dela apagou. DOM 0171 literalmente puxou o carro. "Mas com essa placa, convenhamos...!"
Sentira-se assim desde a primeira infância: enquanto os outros podiam pilotar o próprio destino, ela ia ficando para trás nos semáforos vida afora, a mercê de um motorista sem-coração que, sabia, tomaria por loucura suas súplicas para que ele lhe ajudasse a alcançar DOM 0171.
E não adiantaria chorar, porque isso só faria com que os demais passageiros partilhassem do mau julgamento. Suspirou. Fez uma careta pro cobrador. Abriu um livro. Não gostou. Fechou os olhos.
Chegou em casa tarde. "...Também, pudera... Eu sempre chego tarde. Azar de DOM 0171, que não me ofereceu carona!". Sorte a dela.
aterro literário
terça-feira
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