terça-feira

Beijos, Freud. Me liga!

À época da escola é que nosso existencialismo aflora com força (e consequências!) assustadoras, e é cedo demais para nos darmos conta disso. Crise dos vinteepoucos? Bobazem! O bicho pega mesmo é quando você tem 9.
Por um motivo bem específico, tive um flashback muito aleatório de algum momento já bastante remoto da minha vida (minhas primaveras ainda constavam de 0 ou 1 no primeiro dígito).
Sempre apreciei a contemplação e a elaboração de conjecturas acerca da vida de desconhecidos, mas existia uma fascinação, uma predileção, um susto, um apreço, uma raiva, uma coisa qualquer com os filhos das professoras nos tantos colégios que frequentei.
Em se tratando de meninos, vejo que pertencem mesmo a uma categoria especial de sujeito.
Será...? Será que só eu tinha esse estranhamento quanto ao filho da professora, quem quer que seja ele, hoje ou num tempo longínquo?
O filho da professora apronta mais e se ferra menos; ele era, à priori, um cuzão - ao menos aos meus olhos - porque o filho da professora não repete de ano e não pega recuperação e não faz traquinagem porque senão toma bronca e a mãe fica profissionalmente comprometida. Quando faz, é segredo! Pega mal.
Agora, eu mais vivida, penso que ele vivia coagido. Penso que o filho da professora era um oprimido.
Mas o filho da professora tem o lanche mais gostoso porque a mãe tá por perto e não consegue negar o dinheiro da cantina. Os nerds têm inveja do filho da professora; os malandros têm raiva do filho da professora; as meninas querem namorar o filho da professora; os funcionários zelam pelo filho da professora; a professora obviamente ama mais o filho da professora do que os demais alunos, que, por sua vez, nutrem um estranho amor pela professora. NINGUÉM é indiferente ao filho da professora... Deve ser por isso que eles são sempre meio marrentinhos, meio "galo do galinheiro", usando a brilhante definição de um grande amigo sobre, TCHARANNNN... Um pura-raça filho da professora.
E daí eu me pergunto outros milhões de coisas: será que o filho da professora morria de ciúmes da mãe? Quantas maçãs ele traz entaladas na garganta? O que é feito da cabecinha do filho da professora quando os anos batem à porta e ele é deposto do cargo de filho da professora?
Deve ser uma liberdade e um abandono. Deve ser uma dúvida danada na cabeça. Já crescidos, observo ainda às vezes aquele ar de realeza, e arrisco que alguns já quase me colocaram o dedo em riste pra dizer [tardiamente, coitados...]: VOCÊ SABE COM QUEM VOCÊ ESTÁ FALANDO? EU SOU O FILHO DA PR... mas, ei! Cresceram. Acho também que, como por mágica, acabam adivinhando em mim uma vocação.
Nos últimos tempos - de primaveras começadas por 2 - meu coração foi refém sôfrego (pra usar um eufemismo) de dois encantadores/insuportáveis filhos da professora, e até hoje eu nem tinha dado a mínima relevância a essa coincidência. Mas tem outras!

Eu quero ser professora. Sempre quis, mas nunca soube antes. Percebi há alguns meses, como uma notícia de gestação que chega por telegrama. Eu gero o filho da professora dentro de mim há tanto tempo, e sequer suspeito quando darei à luz.
Isso explica TANTA coisa!

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