domingo

Respirando por aparelhos

Naquela sala estava protegido; como uma bolha, isolava-o do perigo de felicidade que ameaçava na janela: fazia sol.
A vida e aquela série de promessas de encontros e sortes e sorrisos e gozos remetiam-no somente ao esboço mental da ressaca que isso tudo poderia causar. Tudo para ele era invertido. Tudo começava por um viés avesso ao usual, diretamente inverso... E ele se pensava diverso.
Era justamente por tal excentricidade que Bê era tanto mais óbvio que o restante dos homens. É que Bê só girou 180º no sentido oposto ao que os falantes de língua inglesa costumam chamar de common sense (para eles não há distinção semântica entre bom senso e senso comum).
Era só pensar no que uma pessoa faria perante um conflito aleatório, elevar a -¹ e... Voillá! tinha-se o próximo passo de Bê, com o agravante de que ele acreditara sempre que plantar bananeira e sair andando era algo que fazia dele uma pessoa surpreendente.
Não. Seu descolamento do eixo padrão apenas servia para destacá-lo, tornando-o mais previsível. Apontar Bê era um exemplo lúdico para explicar essa e aquela conduta caricatural.
Mas tinha a sala. E a sala o protegia. A sala isolava acusticamente coração e testa. A sala com suas almofadas de tafetá asfixiaria eventuais ímpetos.
Ele calava, ensurdecia, mas seus olhos jamais foram coniventes de sua covardia: os olhos (ou seriam os dentes?) de Bê iluminavam qualquer cantinho triste desse mundo.

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