Faz menos de uma semana e já não se sabe mais se era Gabriel, Daniel, Rafael... O que jamais esquecerá é que era um nome de anjo com um corpo todinho moldado pelo diabo. Tinha as costas tatuadas de cima a baixo de um desenho que dançava em movimentos vigorosos; tinha cheiro de sândalo e gosto exótico para a moda íntima: não tem a menor idéia de como era sua camiseta, mas recorda-se do estranhamento diante de uma cueca amarela. Ponderou que poderia ter sido um presente, vá lá, mas ele escolheu usá-la. Até hoje não conseguiu chegar a um veredicto sobre a escolha, porque sempre guardou um imenso respeito por tudo quanto não fosse óbvio no outro.
A bem da verdade, pouco lhe importava a historinha da cueca. Tivesse ele achado no chão e vestido, não seria uma notícia recebida com sobressalto. Sua vida afetiva era agora uma coleção de selos e era um passatempo interessante o de compará-los em alguma medida. "Esse é mais colorido. Esse lembra um busto romano. Esse está mais perto das estrelas do que de mim. Esse ao menos me carregou junto rumo às estrelas. Esse me empurrou das nuvens. Esse é xará de um cantor brega. Esse tem o sexo com formas e proporções absolutamente parecidos com o daquele... Como é mesmo o nome dele?"
Comparava-os com o critério único de que não haveria como compará-los. Lambia os selos e colava-os em seu devido lugar. Fechava o álbum. Coletava novos selos. Lambia. Comparava. Fechava o álbum... E, dia desses, apertou-o contra o peito e chorou doído, porque o único selo que queria era o de um país que não existia.
aterro literário
domingo
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2 comentários:
Gostei e queria, se possivel, achar essa estrangeira no meu pais de dentro pra falar pra ela que eu tenho um amigo que tb e' estrangeiro em busca de #outras# viajens e selos...!.
Equanto isso os caras jogam video game la' na sala.
Domingo estrangeiro e faz frio.
discípula de Norma Lúcia! Adorei...enquanto não acha o selo do seu país ideal, teste outros, mais outros...
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