quarta-feira

Valei-me, Kundera!

Era um menino de uns 10 anos, não mais que isso. Tinha os cabelos negros meio grudados à testa pelo suor e as maçãs do rosto pareciam duas maçãs-fruta de tanto correr. Os olhos negros e espertos saracuteavam (bem como os pés que mal alcançavam o chão) rosto a rosto dos poucos passageiros daquele vagão da linha mais high society do metrô de São Paulo. Trajava orgulhosamente a camiseta da escolinha de futebol que deitava desajeitada sobre o bermudão preto. O conjunto era de uma harmonia irreparável. Seus dedos se abraçavam, se largavam, brigavam, colavam-se em sinal de prece... Eu, que estava religiosamente atrasada, senti vergonha da minha pressa perante aquela urgência de viver.
Há algum tempo - ou melhor, há algumas leituras - tenho me tornado uma militante anti kitsch, mas face à cena que se deu em seguida, me traí: quando chegou minha vez de ser fitada, presumo que sorri docemente, porque estava justamente a pensar que, tivesse eu 10 anos também, seriam dele meus papéis de carta... E não foi que o projeto de pedaço-de-mal-caminho piscou pra mim e ainda soprou um sorriso garboso com o ar mais confiante do mundo?
Ainda não decidi se isso é um sinal inexorável da minha condição etária de 'tia' ou se, por mágica de pensamento transbordado em olhar, voltei a ser, por alguns segundos, a menina da tiara vermelha.
De uma forma ou de outra, ele partiu meu coração.

Um comentário:

Josa disse...

oi lu!

Tenha certeza. o que aconteceu foi uma mágica de pensamento...Por alguns segundos, a menina da tiara vermelha voltou à vida...

bjos