Ela andava seduzindo até as pedras. Não que fosse intencional e não que estivesse na plenitude de sua beleza; pelo contrário: sentia-se opaca como nunca, sabia do seu potencial de vitalidade e na ocasião sentia-se viva apenas por mera formalidade - talvez porque respirasse ou porque tivesse compromissos inadiáveis - mas vivia à revelia.
Gente às vezes precisa morrer um pouquinho pra continuar adiante, ao que tudo indica.
Não conseguia dissociar 'vida' de 'estado de graça', e, definitivamente, estava bem longe da definição de pessoa radiante que outrora o mundo inteiro costumava lhe atribuir. Devia ser mesmo por sua recusa à sedução daquilo que não lhe interessasse que a mágica se deu (é impressionante como a vida sempre deixa claro, em tom sutil, que "quem manda aqui é ela").
Ninguém jamais teve notícia de mulher que se aborrecesse ao ser cortejada, nem mesmo ela. O ineditismo da situação poderia ser explicado pelo fato de que ninguém jamais recusara de todo a sua entrega, a não ser ele. Os outros que relutaram acabaram por sucumbir. Uns demoraram mais, e pela demora foram mais hostilizados em ocasião oportuna. O amor dela era mesmo hostil... Seu lado humano era ultra-sensível, mas metade dela era um bicho: amava irracionalmente e intuía como um anjo.
Ninguém lhe adivinhara essa estranha configuração, mas ele pressentiu a tempo. Dizia-se dele que era pessoa sem vocação para delicadezas. Não. A metade humana dela captou uma descomunal capacidade de amar naquele sujeito! Era como um radar cujo sinal estava perfeito. As ondas chegaram nítidas a ela desde o primeiro segundo. Seu faro de bicho pôde mesmo comprová-lo empiricamente depois.
O que se deu a seguir não poderia ter bom final para ela... Mas... e para ele?
Ele tinha aparência sempre bem-disposta e salutar, um aspecto jovial e cheio de vigor, rosto corado de quem acaba de descobrir o elixir do bem-viver. O que será feito daquele imenso montante de amor que o terceiro olho dela rastreou nele de imediato? Ela considerou uma crueldade por parte dele não dividir esse segredo, posto que ela adoecera de amor sublimado. Era um pouco como preparar uma festa surpresa e o homenageado não aparecer, situação muito patética.
Ela sempre se recompôs de duros golpes com uma rapidez impressionante, qual a lagartixa que se deixa amputar a cauda e consegue regenerá-la depois. Ela sabia que desta vez não seria diferente, mas sabia também que desta feita restariam seqüelas, e tentar supor quais seriam era coisa que em sã consciência não poderia fazer, sob pena de perder a parte do 'sã' e sobrar apenas a 'consciência'.
E consciência de quê? Só tinha calafrios como resposta.
Uma lagartixa caiu sobre seu pé direito justamente no primeiro dia do ano... Era um sinal, mas o radar dela estava absolutamente obstruído pelas ondas amorosas dele, que eram coisa hipnótica.
Quintana errou por pouco, muito pouco: a gente adoece, mesmo, é de amor recolhido, e não de nome feio... Ou então ela estava errada. Ou então ele fez isso por pura maldade para ensiná-la a não ficar mais de tocaia. Ou então era só a vida mostrando que "quem manda aqui é ela"...
aterro literário
quinta-feira
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Um comentário:
Quem diria que minha mais nova amiga teria uma "aura" de Clarice em sua escrita? Que sorte a minha, justamente minha escritora preferida!
Querida querida Luiza!
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