terça-feira

Sobre palmas das mãos

Tenho notado que tudo quanto não tento reter acaba perene. "Não reter" não é apenas deixar de atuar no sentido de reter; "não reter" é, também, não ambicioná-lo, e isso exige uma simplicidade mental que somente pessoas deveras complexas portam.
Acho engraçado que todo homem tenha as palmas das mãos mais claras que o resto do corpo... Será falta de virá-las para cima?
Lembro de ter visto, em uma viagem, a coisa mais linda do mundo inteiro: um campo de girassóis daqueles que a gente vê na tela e pensa que é impossível existir de verdade. Digo que existe e que em 3 dimensões a cena é infinitamente mais bela. Ao meio-dia eles olham para cima como que pedindo ao sol para existirem.
Observando girassóis, aprende-se muito sobre buscar satisfação e sobre entrega: seus caules se retorcem procurando luz com despreocupada devoção.

Chorei, certa da impossibilidade de guardar aquilo tudo na memória. Ocorreu-me que eu gostaria de acordar lá no post-mortem, embora não acredite nisso.
Guardei a imagem? Não, não guardei; era tudo muito vasto e, além disso, devo ter querido demais registrá-la... Sequer tive coragem de fotografar. Nenhuma foto faria jus àquela visão deslumbrante.
O que me resta sempre de experiências dessa ordem são quelóides dos quais me orgulho em contar a origem. Meu corpo é muito pequeno para tantas marcas, e minha alma não é muito maior. Deve ser por isso que sinto urgência em espalhá-las: relato sensações íntimas a qualquer passante da rua... E por que não?
Acho que tentando não retê-las, terei-as para sempre; deixo livres as palavras e elas me vêm em profusão, salvando-me de mim mesma quando me pergunto quem é a garota usando meu pijama... A facilidade em apontar o que temos, em contraste com a dificuldade em definir o que somos deve ter algo com isso.
Quanto aos girassóis e outros amores, ao menos pude plantar uma mudinha deles dentro de mim.

Um comentário:

Anônimo disse...

Temos que aprender a sutil diferença entre prender e apreender.
PS: adorei o final do texto.