segunda-feira

Inseto-existencial-pródigo

Ele recomendou, e ela leu a Metamorfose de Kafka.

Perdeu a noção do limiar entre admiração e deslumbramento pelo anti-herói: entrincheirou-se na suíte que lhe fora destinada como cativeiro e levou para perto de si todas as armas brancas que pudessem ser empunhadas ou atiradas em defesa do território, que agora não poderia ser adentrado por mais ninguém alem dela e da solidão, sua fiel escudeira desde sempre e para sempre.

Passava os dias ouvindo compulsoriamente os ruídos que vinham do além-quarto. A noite e seus silêncios eram sempre curtos demais para dar conta de seus gritos mentais... Ojerizava, ao amanhecer, o som dos veículos que passavam na avenida cheios de (argh!) pessoas. Sentia até medo de se debruçar à janela e dar com algum exemplar dessas criaturazinhas repugnantes. Da varanda do aposento, tudo se invertia: eles eram pequenos e ela era grande. Talvez tenha sido o vislumbre dessa relativização capciosa o momento-chave, aquele passo que não tem nunca regresso, a epifania que a impeliu definitivamente ao confinamento. Olhava-se no espelho somente de relance, para verificar se já tinha se metamorfoseado em inseto e, se sim, com qual tipo de configuração física ela teria sido agraciada.

Nada!

Lia às vezes e pensava francamente em transformar a televisão quebrada em um criadouro de qualquer coisa que não pássaros, para assegurar que não voltasse nunca a ser ligada. A lembrança daquela caixa animada cheia de exemplares ideais(?) da sua [ainda] raça era aterrorizante. Os que não sabiam de seu atual estado tentavam contato eventualmente, e se punham a convidá-la para sair, enchiam-na de perguntas, outros queriam conversar... Completamente inadvertidos! Ela sequer ouvia música que não fosse instrumental para não ouvir vozes humanas, mas, como recordasse ainda a linguagem de seus pares, disfarçava sua voz de inseto ao telefone e alegava compromissos inadiáveis, sucessivos, exaustivos...

-Ah, sim! ZzZzuuumm....ops! cof, cof... Ta uma loucura essa zZzsemana! Te ligo maiszzZ tarde. Um beeeizzZZzo.

Bom mesmo era que no código de conduta dos insetos, mentirosos não ficavam mal-vistos.

No mais, os homens não podem ouvir verdade alguma. Ficam deveras transtornados, e ela já tinha desenvolvido a habilidade artrópode de ficar alheia a essas questões sentimentais, emocionais, psicológicas ou qualquer baboseira equivalente. Não poderia abrir oportunidades de retrocesso.

Na nova rotina, as horas passavam rapidamente, eram leves, ternas, eternas, infindáveis, generosas... As horas eram, finalmente, amigáveis!... E tudo – ou melhor, esse nada absoluto – se dava tão agradavelmente!

Sua única expectativa agora era mesmo a de se metamorfosear o mais rápido possível, preocupando-se um pouco com sua casca humana, porque, essa sim, ela logo iria envelhecer... Sorrateiramente, dia após dia... Uma sutilidade perversa.

O que faria se a transmutação completa jamais viesse e, de moça, se transformasse desavisada em senhora, forçada a voltar ao seio social sob essa composição híbrida de besouro bípede?!

O que fazer?

Um comentário:

Anônimo disse...

Você pode fazer que nem no filme "A Mosca": constrói um aparelho de teletransporte e quando testá-lo ponha o inseto de sua preferência junto na cabine e voilá!