O que vai ser escrito aqui não pode ser lido por gente de estômago ou nervos fracos. Pode ser que a curiosidade os leve a querer ver o restante... Então, dessa linha em diante, o que quer que possa lhes acontecer não é mais de minha responsabilidade.
Começo estragando o suspense - recurso que não suporto. Quero aqui romper com qualquer benevolência e realizar, com requintes de crueldade, o ato mais abominado pela minha geração: chamarei de gato a um gato.
A quem sobreviveu até aqui, farei o esforço de explicar.
Ando muito por aí, conheço outro tanto de pessoas, todo dia distribuo e recebo sorrisos e elogios cordiais; às vezes recebo também insultos sem rodeios: a minha gente é libertina. Tudo se pode dizer a um desconhecido e tudo se pode fazer, assim, no ato. Tudo. Exceto cometer a verdade.
Jamais vou entender o que se passou comigo nos 4 últimos dias e tampouco o superarei. Aceitei isso como aceito todas as verdades e digo isso não para demonstrar virtude: o que desejo, mesmo, é agredí-los com a verdade. Quero que ela grude feito uma inflamação cheia de pus e mal cheiro até dilacerar suas retinas; quero que a visão da verdade se torne um pesadelo recorrente que os leve às últimas raias da loucura.
Que morram vocês todos engasgados de verdade e farofa! Gosto de imaginá-la fincada na transversal em vossas gargantas, feito osso de galinha. Meu alimento de hoje é o sangue pisado da hemorragia que a verdade possa enfim lhes causar. A mim já não importa: nunca pude deixar de sofrê-la, e venho trazendo a ressaca de tornados por onde quer que eu passe. A verdade me tomou a família ainda em vida - eu hoje sou filha de mim, sobrinha de ninguém... Às vezes sou irmã de outrem, conquanto não os exponha sequer a um fio de sinceridade.
E fui vivendo dessa maneira: tratando por rato o que era gato, tratando por amor o que era só apreço, tratando por apreço o que era só um hábito, tratando, polida que sou, o que era ódio por antipatia.
Eu hoje digo terrivelmente vingativa: um gato é um gato, e a solidão, a única amiga.
aterro literário
segunda-feira
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2 comentários:
então tá . não li...
se um dia puder ler me avisse? to tão curioso... e é verdade...
amor
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