sábado

Funeral coletivo

C a v a n d o ...
a
v
a
n
d
o...

Com colheres
Do enxoval provisório
Nunca providenciado
Abriu-se uma cova rasa
Para amontoar
Antes de abril
Os cadáveres de matéria sutil
Dos filhos não concebidos,
Não nascidos,
Os não
Criados — sequer malcriados
Restando no seio (dela)
Somente o leite empedrado

Ali depositados putrefariam
Os restos de banquetes
De natais jamais comemorados
Cheios de presentes nunca (des)embrulhados,
Com os respectivos cartões
Claro! nunca enviados,
E as viagens de férias
Sem partida e sem volta,
E as fotografias envelhecidas
Do clã que não surgiria

Vai tudo sendo enterrado
Na vala comum do esquecimento
Como sonhos indigentes
Encontrados à beira da estrada
Nus e sem documentos
E que precisam ser submergidos
Ur-gen-te-men-te escondidos
Para que o odor fétido
Não incomode os passantes,
A família, os amigos... Quiçá, a amante!

1. Solenidades

1.1.
Coroas de flores reaproveitadas
Da grinalda, dos buquês das bodas, das varandas enfeitadas,
Da reconciliação pelo desentendimento de outrora
Que relógio nenhum registrou
Algumas foram colhidas
Talo por talo
Do campo deserto de girassóis de inverno
Onde, já se sabe,
Flor alguma desabrochou;

1.2.
No lugar do orador
Um mendigo ateu
É o pároco em faz-de-conta
Profana impropérios
E baila uma ciranda tonta
Tocando num violino gestual
Uma marcha fúnebre-nupcial
Das núpcias imaginárias
Tradicionalmente executadas
Nas cerimônias da Igreja de São Ninguém;

1.3.
Na lápide, um epitáfio infame:

"Ela esquece com métrica;
Ele esquece com meretriz."
Amém.

3 comentários:

luiza disse...

Agradecimentos a Vinícius de Moraes por ter escrito o "Soneto de separação" e a Chico Buarque por "Pois é"... rss

Anônimo disse...

parabéns, vc conseguiu colocar o dedo na minha ferida de inconcretudes(existe essa palavra?)

Anônimo disse...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante...